quinta-feira, 9 de maio de 2013

XT-War



“Um conceito simples de XT-War: uma guerra extrema,
real e devastadora, que emprega maestria humana
e tecnologia de teletransporte para atingir
o inimigo, remota e mortalmente.”

Nota do Pentágono à imprensa americana,
dias após a deflagração dos Jogos Universais.


O texto a seguir foi extraído do livro Jogos Universais. Nesta cena, Paul Thomas Morgan, agente da CIA, explica para Sara Minamoto (e que mais tarde se envolve com ela) em linhas gerais o que é o projeto secreto XT-War (ou XTW).


Sara entrelaçou as mãos ao colo, pacientemente.

— Até onde fomos, há cerca de quarenta anos o DoD, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, encomendou o projeto de um supersoldado artificial. Um ser que pudesse agir em qualquer lugar sob condições bem críticas, e aparecer e desaparecer feito um ninja. Cada combatente deveria ser capaz de se materializar, executar o trabalho com eficiência e depois sumir no ar literalmente. Eis os meios e as armas de um novo conceito de guerra que o Pentágono queria desenvolver, e que mais tarde batizou de XT-Wars, ou abreviadamente XTW. Em síntese, são guerras extremas que empregam tecnologia de teletransporte para projetar supersoldados artificiais em qualquer lugar do planeta.

Neste momento, Paul tinha toda a atenção de Sara, que inclinou ainda mais a cabeça na direção dele.

— A pesquisa do supersoldado começou durante a Guerra Fria, em 1974, junto com a fase de melhoria de outro sistema que ganhou notoriedade anos mais tarde, o GPS. Aliás, o aparato por trás do conceito de guerra XTW e o GPS estão intimamente relacionados. Mas enquanto este último continuou em frente, o programa do supersoldado durou apenas dois anos, até ser suspenso pela primeira vez. Os relatórios de avaliação da comissão avançada de pesquisa da época alegaram inviabilidade cientifica para a modalidade de guerra que o DoD pretendia desenvolver. Mas quase uma década depois, o projeto XTW foi retomado. A outra parte, que veio a público, consistiu de um plano bem divulgado na imprensa. Foi a chamada “Iniciativa de Defesa Estratégica”, mais conhecida através da expressão popular "Guerra nas Estrelas". Um sistema ambicioso anunciado oficialmente no governo Ronald Reagan, e previa, além de equipamentos caríssimos, a construção de uma complexa rede de satélites espaciais e armas a laser.

Paul sondou o rosto sério de Sara, antes de continuar.

— Meu país vivia o auge das tensões com a União Soviética e a "guerra nas estrelas" objetivava detectar e destruir mísseis nucleares intercontinentais soviéticos, caso fossem disparados contra nós. Já os investimentos com o supersoldado, a parte que não foi contada ao público, geraram mais oito anos de pesquisas e protótipos experimentais malsucedidos. Isso já deu para imaginar, levou a um novo cancelamento do programa militar de codinome HSoldier-XTW. Foi também a época da extinção da União Soviética, fato que pôs fim a Guerra Fria. Para que gastar tanta grana e esforços num projeto que beirava a utopia, se o comunismo já não era mais uma ameaça? Porém o fato contrariou gente que acreditava no que estava fazendo. O tempo passou, a ciência evoluiu a galope e o clima político da América foi drasticamente abalado outra vez. O Relatório da Comissão do “11 de Setembro”, por exemplo, produziu alguns efeitos imediatos e outros a longo prazo, tanto no coração da nação quanto nas diretrizes do governo. Foi aí que o Pentágono fez valer as recomendações preventivas de contra-ataques futuros, ordenando a conclusão do projeto XT-War em apenas três anos. Uma meta impossível, todos disseram. Mas, diante da nova predisposição oficial, o programa foi retomado com tudo. E com novos problemas. O cronograma se estendeu por quase o triplo do tempo estimado. Pior: custou bilhões de dólares adicionais não constantes do Orçamento de Defesa estipulado inicialmente; a grana veio de uma fonte ainda mais sigilosa, que não descobrimos. Alguma entidade muito poderosa assumiu as rédeas e exigiu mudanças desde então. Foi também o início de inúmeras demissões conturbadas que obedeceram a critérios escusos, isso atendendo à pré-condição da injeção do dinheiro que fez impulsionar o trabalho novamente. Ao menos foram estes os boatos aos quais tivemos acesso, pois tudo continua muito velado ainda hoje. Em decorrência às mudanças forçadas, um grave desfalque foi sentido no corpo científico veterano. Ocorreram mortes misteriosas e a aposentadoria compulsória de militares retirados da ativa, sem maiores explicações. Quem quer que fosse o maioral sem rosto, fez uma boa limpa na velha guarda das equipes de pesquisa e nos oficiais seniores. Foi também a fase em que as forças obscuras, a cadeia de comando oficial e a ciência de ponta se cruzaram nos bastidores como mundos dissidentes e em franca colisão. Dos três, venceu o primeiro, o poder oculto, o mais forte e infiltrado de todos.

Paul levantou-se e começou um vaivém em frente ao sofá, enquanto foi avançando em sua explanação incrível. Alternava o olhar do rosto de Sara para o tapete sob seus pés, e deste de volta às feições da garota, já perplexa com o que ouvia.

— No início do ano passado, o DoD finalmente obteve um protótipo funcional da série XTW: o primeiro humanoide hologrâmico então estava pronto para os testes pesados. O momento da verdade veio em uma tarde de março, quando ele se materializou com problemas no Campo de Testes de Nevada, uma área do Complexo Militar de Nellis. Depois de algumas tentativas frustradas para estabilizar a projeção defeituosa, a situação foi controlada e o supersoldado conseguiu entrar em operação. Seus movimentos foram acompanhados de perto por um esquadrão de helicópteros Pave Hawk das forças especiais. Durante meia hora, o holossoma se deslocou pelo solo. Um engenheiro militar o guiou de uma estação de telecomando subterrânea, a quilômetros do local. O DoD planejava tornar o supersoldado um ser autônomo no futuro, condição que também acabaria com a “paridade motora”, ou seja, a situação restrita de haver um controlador humano para um avatar teleguiado. Como nos videogames. Enquanto não acontecia, o soldado original foi posto a prova. Iniciou executando suas tarefas razoavelmente bem, atendendo expectativas básicas, após surgir em pleno deserto, com satélites GPS servindo de vetores de teletransporte para ele. Foi impressionante: um holograma hiper-realista que podia se materializar e interagir com o meio físico, manipulado à distância, e depois sumir no ar! Ao menos era isso que se esperava. Pois outro problema aconteceu. Num dado momento, o holossoma começou a se decompor involuntariamente, sem que ninguém pudesse evitar. A estrutura molecular projetada perdeu coesão e se degradou, evaporando em segundos. Ficou provado que ele não se sairia bem numa situação a valer. Mas confesso a você que não sei quais os fatores científicos que contribuíram para o fracasso parcial do teste.

Paul silenciou um momento. Começou a sentir o calor do dia se intensificando dentro da mansão. Nisso, pareceu evocar imagens mentais específicas, quando disse:

— Temos muitas informações e dados a respeito do que aconteceu depois, pois são órgãos da Inteligência como a CIA, a DIA (Agência de Inteligência da Defesa), o NRO (Escritório de Reconhecimento Nacional) e a NGA (Agência Nacional de Inteligência Geoespacial), os principais integrantes da estrutura conjunta que dirige os programas secretos relacionados a satélites no meu país. E todos eles se reportam, por sua vez, ao Comando Espacial dos Estados Unidos, que gerencia projetos das unidades do Exército, Marinha e Força Aérea. Há um centro de atividades encravado na Montanha Chayenne, em Colorado Springs, de onde tudo é dirigido contando-se com recursos de alta tecnologia. Isso para você se situar melhor no problema.

O rapaz divagou por alguns segundos, até retomar seu testemunho principal diante de Sara.

— A coisa seguiu em frente. O experimento seguinte foi ainda mais incrível. Ocorreu quatro meses depois do incidente com o primeiro supersoldado. Tive a oportunidade de assistir ao vídeo-relatório editado do qual conseguimos uma cópia, a muito custo, mesmo dentro da CIA. O segundo supersoldado da série XTW também foi posto à prova no deserto, mas desta vez sem apresentar maiores problemas no suporte de materialização. Depois perambulou por áreas demarcadas, onde fez alguns exercícios de tiro a alvos táticos, destruindo velhos caminhões e tanques de guerra deixados lá, por exemplo, e ainda executou manobras evasivas muito precisas. Isso por mais de duas horas ininterruptas. No final do teste de campo, o avatar militar se teleportou perfeitamente. Um grande feito, sem dúvida, depois de anos de trabalho e muita sujeira escondida.




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