terça-feira, 12 de novembro de 2013

Fatal Fight




Oficialmente, não passava de um armazém desocupado. Mas a verdade era bem outra: a Yakuza havia tomado conta da área depois que a companhia pesqueira falira e abandonara as instalações na Baía de Tóquio. Desde então o local deixou de ser um frigorífico de carne de baleia para receber em suas câmaras outro artigo menos nobre. Foi assim que a margem noroeste das docas passou a servir ao secreto narcotráfico, e este intensificou o abastecimento dos distritos de Tóquio, enquanto o restante da droga seguia de ferryboat fretado, com frequência zarpando do Terminal de Ariake ou dos portos de Yokohama e Chiba. A manobra seguinte da máfia japonesa consistia em cruzar o canal de Uraga, desembarcando depois a carga ilícita em enseadas e atracadouros banhados pelo Oceano Pacífico ou pertencentes à costa do Mar de Okhotsk. Daí tomava outro destino, desta vez a bordo de pequenos aviões, rumando às ilhas do arquipélago e ao submundo instalado no continente asiático. Nesse último estágio da venda de narcóticos, parte da heroína alcançava ramificações criminosas entre as temidas Tríades chinesas, as metanfetaminas indo concorrer com a produção local da Coréia do Norte, e outro tanto de entorpecentes era reservado à famosa máfia russa e a outras facções criminosas menores, atuantes na Eurásia.
No começo das operações nas docas, agentes e policiais japoneses até que verdadeiramente se empenharam na tentativa de apreensão da mercadoria distribuída pela bōryokudan, como a Polícia de Tóquio denominava a Yakuza; um tempo depois, porém, ninguém mais ousou atacar a bandidagem no seu covil portuário. E, mais que um armistício, fora uma “licença régia concedida aos facínoras”, segundo relatou a própria força de ordem a respeito dos novos ocupantes do armazém.
O local à margem das águas profundas e poluídas da baía era agora vigiado pelas gaivotas-pardas à procura de alimento. E justamente em tal zona neutra o crime organizado decidiu armar o palco para os seus mais loucos e selvagens espetáculos.

Yamaguchi Gumi: o maior clã da Yakuza


Fatal Fight (FF)

Recentemente, holofotes de halogênio foram instalados no teto do pavilhão. Os tubos negros e cilíndricos pairavam em círculos sobre a arena, feito urubus devoradores da carnificina que acontecia mais abaixo: as lutas sanguinárias travadas em cima de um estrado de madeira alto, cujo formato retangular perfazia um total de 120 m² de superfície revestida por grosso forro sintético. Do alto, as luzes lançavam fachos móveis sobre a zona dos conflitos armados. No local acontecia o Fatal Fight em suas edições semanais de combates cruentos bancados por um seleto grupo de bilionários vis e inescrupulosos. As imagens dos confrontos extremos eram tomadas ao vivo e transmitidas em canal privativo. Havia rumores de que a frequência aumentaria devido à pressão de poderosas forças obscuras, audiência ávida e anônima que passara a injetar grandes somas de dinheiro nos eventos bárbaros.
Depois, os vídeos editados eram vendidos na vilania do comércio paralelo. Por fim caiam na Web, onde se convertiam em milhões de hits no YouTube e depois circulavam livremente nas redes sociais, ora fascinando ora escandalizando muita gente que se referia a eles como a “grande ignomínia humana”, e ainda a “vitória do demônio sobre a obra de Deus”.
Na prática, cada edição do Fatal Fight (ou simplesmente FF) só fazia crescer a febre doentia que acometera investidores alucinados que contratavam a peso de ouro suas equipes de XT-gamers junto aos integrantes da “XTreme league”, a associação fora da lei criada pelos promotores das lutas. E, seguindo a linha de atrocidades, os XT-horgs postos em combate enriqueciam seus operadores sem rosto; mas eram os avatares hologrâmicos que ganhavam fama no lugar dos jogadores clandestinos. Na realidade, o prêmio final, orçado na casa dos milhões de dólares, era entregue em espécie e em reuniões secretas aos campeões dos torneios encarniçados, que assim mantinham-se incólumes e anônimos do público e das autoridades. E, no geral das vezes, as rinhas marciais permitiam que avatares se digladiassem nas categorias “horg-versus-horg” e na recém-criada modalidade “horg-versus-humano”. Centenas de guerreiros de todas as cepas se encontravam na Arena da Morte para protagonizar chacinas do mais puro e requintado sadismo jamais visto, nem mesmo nos áureos tempos do Império Romano.
No Japão, a contenda dos gladiadores cibernéticos tinha até direito a “comerciais”. As cenas anunciavam uma gama de “produtos e serviços diversificados”, marca da famosa sociedade criminosa nipônica, a Yakuza.
           Enfim, para a máfia japonesa, sempre se podia ganhar muito dinheiro onde quer que houvesse algo para ser ameaçado, usurpado, banido ou mesmo aniquilado até às cinzas.

De quando Sara Minamoto lutou pela primeira vez no FF
“Foi assustador! De repente eu estava lá, diante daquele monstro louco para me matar! E o ambiente se inundou de uma música ribombante... atordoante... que eu reconheci, pois era um hit antigo que Lorena costumava cantar: ‘Bodies’, de uma banda chamada Drowning Pool; um meme que ficou na minha cabeça, quanto mais depois do que vivi naquela noite!
“Na hora, minha mente começou a processar muito mal a realidade... Tudo estremeceu naquele lugar de doidos, tudo: o ambiente, o meu corpo, os meus nervos, a minha razão e até o meu senso de sobrevivência trepidou junto e intensamente. Uma sensação horrível se apoderou de mim!”.





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