domingo, 12 de janeiro de 2014

Os novos "Waza" - I


“As técnicas secretas começam com as técnicas básicas;
as técnicas básicas terminam como técnicas secretas.
Não há segredos no começo, mas há segredos no final.
A chave do sucesso é o treinamento árduo.”
Kanten Toyama, mestre de Karate-dō.


Ela desceu a escada do subsolo, dirigindo-se à garagem. Lá embaixo, deslumbrou-se com a amplidão mista de concreto e pedra assim que o sensor de proximidade detectou sua presença. Se desse um suspiro, ouviria o eco da sua palpitação ali dentro. E ficou olhando, admirada, para as colunas altas e robustas que respaldavam as paredes e sustentavam o teto feito obeliscos rústicos. O cérebro da garota imediatamente começou a avaliar espaços e possibilidades diante daquele...



“...lugar provocante que eu soube, assim que o vi pela primeira vez, seria muito especial para mim. Lorena diria um tempo depois que era a minha ‘Batcaverna’, o meu esconderijo de pedra e solidão. Foi o espaço propício e subterrâneo para eu executar as ideias que vinha desenvolvendo há algum tempo, mas que sempre estiveram na minha cabeça até então. Naquela garagem comecei a treinar meus novos ‘waza’, técnicas aéreas de combate inteiramente desenvolvidas por mim.
            “Na verdade, inicialmente não passavam de uma coisa louca imaginada, pois eu nunca havia testado aquilo tudo na prática; mas precisava ser concretizado, eu sentia. A hora havia chegado e aquela enorme garagem ajudaria nisso e muito mais."

Acima de tudo, ela almejava uma base ainda mais sólida para o encaminhamento principal: dominar plenamente seus waza secretos, as inovações técnicas de combate que ela mesma vinha elaborando em sua mente criativa e ousada. Pois algo intimamente lhe dizia que “Agora é pra valer, Sara!”. O mundo logo se tornaria um lugar demasiado ruim de habitar. E não havia mais tempo a perder.
O momento apoteótico veio logo. Foi quando ela lançou mão das inigualáveis armas: a “Ode de Oda”, como se referia poeticamente ao daishō “fighting spirit”. Todos os dias a garota conduzia suas espadas magníficas, descendo da confortável e perfumada suíte do segundo andar do casarão, para, na espartana academia subterrânea, executar com elas o alucinante balé dos seus waza em ação. Sara treinou sem tréguas e até a exaustão, culminando com o padrão neurológico do aprendizado fixado, mas respeitando sempre o princípio das adaptações bioquímicas e fisiológicas da sua própria individualidade biológica. Foi bem assim que ela, no esconderijo da garagem, refinou dia a dia suas novas habilidades e mesmo os antigos pendores marciais.


Daishō “fighting spirit”

“O cerco estava se fechando... Eu sentia vagando no ar uma sensação ruim. As coisas haviam se complicado bastante, e a hora de dar uma guinada radical nas minhas práticas havia chegado. Se quisesse enfrentar o que estava por vir e sobreviver inteira, então precisava fazê-lo. Uma voz me dizia quase que o tempo todo: prepare-se!
“Então eu descia à garagem todo dia para me exercitar de manhã à tardinha. Para começar, praticava o kendō-kata básico, utilizando um sortimento de espadas e bastões de madeira; e isso independentemente do estágio ou grau em que me encontrasse. Lição que absorvi do meu saudoso mestre. E antes de iniciar, fazia meu aquecimento físico. Na sequência, aplicava o ‘suburi’, o forte manuseio da shinai na preliminar, executando uma repetição de cortes muito rápidos, até sentir meus músculos pulsarem feito cordas. Estava então pronta para os treinos mais intensos e arrojados que vinham depois: os meus loucos e perigosos ‘waza aéreos’, e já utilizando minhas espadas verdadeiras na ocasião!
“Com isso eu dava continuidade ao desenvolvimento das minhas próprias e exclusivas técnicas de combate. Eu as fui desenvolvendo dia a dia. Uma prática que redefiniu um estilo diferente e tremendamente agressivo de lutar com as espadas. Minha inspiração veio do Parkour que o pessoal exercitava nas praças de Porto Alegre. Eles ficavam saltando, correndo e se empoleirando em tudo que viam pela frente como se fosse a coisa mais natural e fácil do mundo. Fiquei fascinada. Estudei ainda as manobras dos corredores livres, os chamados ‘ninjas urbanos’. Por fim juntei tudo numa só coisa: Kenjutsu, Parkour e corrida livre e outras gingas marciais que eu mesma fui inventando naqueles dias. No final, saiu um ofensivo coquetel de disciplinas de equilíbrio, força, destreza e mais a arte do deslocamento. Foi de tirar o fôlego!"

Parkour 

“Meu método de combate obtinha o máximo proveito da interação entre a técnica e os elementos do próprio entorno da luta, fosse o que fosse e onde fosse. A esta altura, eu já havia extrapolado, decididamente, as instruções dos ‘kata’ prescritos pelo Kendō oficial.
“Apesar da minha loucura, eu tinha plena consciência de uma coisa ao menos: estava rompendo com as determinações do padrão estabelecido pela ‘Federação de Kendō de Todo o Japão’, o órgão máximo que regula tudo internacionalmente. E a partir deste trecho do Caminho em diante, eu só pude contar comigo mesma, houvesse luz ou escuridão. Então comecei a fazer outra viagem marcial... solitária e muito perigosa!
“Tudo o que eu sentia é que precisava fazê-lo. Foi como uma ordem, sem direito à negociação ou desobediência. Aquilo envolvia uma verdadeira redefinição do meu senso de espaço, volume, rapidez e perspectiva do modo com que havia treinado por anos, em cima dum tatame tradicional. Eu havia forjado a reprogramação do meu corpo inteiro, junto do desenvolvimento da minha alta percepção daquilo que me cercava, sem mesmo enxergar os objetos com a visão física.
“Mas se era para romper com as regras tradicionais e ousar nas alturas, nas paredes e em tudo mais que se parecesse com um obstáculo útil e propício, ou um adversário, enfim, eu precisava também reaprender a dominar o centro de gravidade do meu corpo ao me aventurar no ar. É algo que varia com a posição da cabeça e dos membros, quando se está lá em cima e em movimento contínuo. Precisei aperfeiçoar a biomecânica do meu corpo completamente, ensaiar manobras de aterrissagem, distribuir a carga do meu peso tanto no ar quanto no chão, e ainda dissipar a energia cinética ao voltar ao solo com tudo. E, detalhe: portando duas espadas afiadíssimas! Loucura, eu sei, mas foi também uma façanha física sem igual."


Nenhum comentário:

Postar um comentário