segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Os novos "Waza" - II


Naquele dia, Sara carregou para baixo o som portátil. Conectou na saída de áudio duas potentes caixas de som, que foram instaladas de tal modo na garagem que as propriedades acústicas do pavilhão de pedra e concreto repercutiam a música em cada centímetro quadrado, sem contudo perder intensidade nem produzir distorções.
Tudo estava pronto para mais uma sessão de treinamento dos novos waza.
Sara selecionou, dentre as canções da playlist, a faixa “Beat It”, que tocou no volume máximo.
“Uma manhã, fiz diferente. Treinei ao som de música. E escolhi ‘Beat It’ para executar meus‘waza’ porque o contexto do clipe da música envolvia gangues rivais prestes a entrar em pancadaria. Pairava no ar uma tensão de luta em potencial, bem adequada às circunstâncias que eu estava vivendo na época. Eu já tinha confrontado um horg e me preparava para outro enfrentamento com aquelas criaturas apavorantes. Sabia, dentro de mim, que isso iria acontecer em breve, a qualquer momento. Eles podiam surgir ali mesmo na garagem.
“A música refletia o meu estado de espírito. Eu já sentia o meu corpo com precisão, cada parte dele no pleno domínio marcial dos meus movimentos e recursos naturais... Porém meu pensamento não estava de acordo, parecia deslocado com o peso emocional de estar numa fase da minha vida em que nada parecia querer colaborar para as coisas voltarem ao normal.
“Naquele momento, a música que tocava era a metáfora quase perfeita do que eu sentia e vivia na minha alma e nos meus nervos."
A batida da música começou a vibrar e inundou o grande vão subterrâneo. Propagou-se repleta de energia assim que soou estimulante, ocupando espaços antes vazios e dormentes.
O palco e a trilha estavam prontos para o verdadeiro e inusitado show que viria a seguir.
Ela posicionou seus pés, bem firmes, no pavimento de concreto da garagem. E desembainhou a katana e a wakizashi. Cruzou as belas espadas na altura dos pulsos. Portava o daishō fighting spirit que Kentaro Oda lhe presenteara misteriosamente. Seus novos waza exigiam dela o uso das formidáveis armas, destinadas a combates reais e mortais!
Assim ficou concentrada.
Parecia um começo de coreografia em que todo o seu corpo aguardava em prontidão ansiosa.
A batida introdutória da música de repente fez pulsar o ambiente inteiro: em resposta, Sara descruzou as espadas e as foi girando nas mãos, enquanto ela ainda aguardava... 
Não precisou esperar mais, os acordes soaram vibrantes, o riff principal da guitarra repercutiu nos paredões cavernosos da garagem; a vibração sonora excitou cada terminação nervosa do corpo de Sara. Ela sentiu um arrepio eletrizante percorrendo-lhe a espinha, fazendo girar todos os seus chacras. Aquilo tudo ativou os centros energéticos do seu corpo e aguçou sua vontade de lutar!
Neste exato momento seus olhos se abriram e brilharam como nunca. E ela correu para iniciar seu incrível recital aéreo.
Mais a diante, as estrofes da música estremeceram o ar, junto com o corpo da garota em movimento alucinante:

They told him don't you ever come around here
Don't wanna see your face, you better disappear
The fire's in their eyes and their words are really clear
So beat it, just beat it (…)

A primeira técnica que Sara aplicou era a sua favorita: o en-waza. Consistia da inversão vertical do movimento em pleno ar, um loop completo no giro de 360º do corpo. A ação louca acontecia assim que ela encontrava pela frente uma parede, uma coluna ou que mais fosse que lhe permitisse tomar impulso com os pés. Com isso, impelia seu corpo num grande rodopio acima, para em seguida retornar ao chão, onde exercitava o rolamento corporal até ficar em pé como se nada tivesse acontecido. Mas antes disso, ainda no ar, sua trajetória voadora desferia o corte fulminante das espadas duplas, a voluta do aço zunindo como um enxame de agulhões mortais!...

You better run, you better do what you can (…)





Nos dias seguintes, Sara voltou a treinar seu assustador arsenal de golpes e estocadas. E ainda mais intensamente do que antes.
Lorena soprou a novidade ao ouvido do “tio Mása”. Então Masaharu Minamoto, numa tarde de folga no trabalho, desceu à garagem a tempo de presenciar as cenas mais espetaculares que já vira no mundo das contendas marciais: a filha lá treinava, conforme delatara Lorena, ensaiando sua arte aérea e clandestina, com uma dinâmica impossível. Até parecia contrariar os princípios da gravidade dos sólidos, derrogando justamente as leis da Física que ele tão bem conhecia.
Ficou parado presenciando a cena, até que Sara o detectou no seu radar mental. Ela interrompeu-se para ir ter com o pai. Desceu das alturas em sua miragem de anjo armado. Aterrissou perante um Masaharu perplexo. Fitou-o, quase simultaneamente ao ato de depor suas espadas numa cadeira. Apanhou uma toalha e secou a transpiração do rosto e do peito.
— Que foi isso que testemunhei, Sara-chan?! — a voz lhe saiu fraca, como se um resto de estupor o inibisse. — Pensei que estas coisas só eram possíveis na trucagem do cinema?
— Às vezes, pai, a realidade necessita ir além da ficção — ela respondeu com um leve ofegar em sua respiração.
***
Mesmo o professor Minamoto, grande aficionado das artes samurais, passou a preocupar-se com a atitude da filha. Porém adotou o estratagema da “observação casual e incerta”: chegava sem avisar e saía sem ser percebido.
Foi quando o “diabinho amigo” soprou nos ouvidos de Sara. Encarapitado em seu ombro e imitando a voz afobada de Lorena, ele repetiu como num estribilho em sua mente: “Muda de música e de vida!... Muda de música e de vida!...”.

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